1 Tau, G., Peterson, B. Normal Development of Brain Circuits. Neuropsychopharmacol 35, 147–168 (2010). https://doi.org/10.1038/npp.2009.115
2 Humphreys, K.L., Fox, N.A., Nelson, C.A., Zeanah, C.H. (2017). Psychopathology Following Severe Deprivation: History, Research, and Implications of the Bucharest Early Intervention Project. In: Rus, A., Parris, S., Stativa, E. (eds) Child Maltreatment in Residential Care. Springer, Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-319-57990-0_6
3 Heckman, J. J. (2012). Invest in early childhood development: Reduce deficits, strengthen the economy. https://heckmanequation.org/resource/invest-in-early-childhood-development-reduce-deficitsstrengthen-the-economy/ https://developingchild.harvard.edu/
ORIENTAÇÕES PEDAGÓGICAS PARA CRECHE
Alexandra Marques – Infância 0.9 – Consultoria e Inovação
Sara Barros Araújo – Escola Superior de Educação do Porto
Maria Assunção Folque – Universidade de Évora
Liliana Marques – Direção-Geral da Educação
Ana Azevedo – Agrupamento de Escolas de Vila Verde
O direito à educação e cuidado de qualidade até aos 3 anos
Existe um consenso geral sobre a necessidade de atender à educação e cuidado das crianças até aos 3 anos, contudo, em Portugal prevalece ainda o enquadramento da creche como resposta social às famílias e não como direito das crianças à educação.
Se em tempos já remotos o cuidado e educação das crianças era remetido para a esfera familiar ou privada, sabemos hoje que os primeiros anos de vida são cruciais ao desenvolvimento humano, e que ocorreram inúmeras mudanças na sociedade ao nível das estruturas familiares, das configurações do trabalho, dos papéis das mulheres na sociedade e das práticas parentais.
O direito da criança à educação desde o nascimento e a visão de criança enquanto cidadã de pleno direito, consignado na Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) requerem a implementação de políticas que garantam a educação e o cuidado a todas a crianças. Estes serviços são de uma enorme complexidade e requerem profissionais com uma formação específica sólida.
A revisão de estudos longitudinais dedicados à análise do impacto da experiência da criança em creche confirma que a educação e cuidados de elevada qualidade têm efeitos positivos a curto, médio e mesmo a longo prazo nos processos de aprendizagem e desenvolvimento da criança. A título ilustrativo, refira-se o estudo longitudinal coordenado pelo National Institute of Child Health and Human Development, que acompanhou mais de 1.000 crianças, desde o nascimento até à adolescência. Os resultados deste estudo revelaram que as crianças que frequentaram contextos educativos de elevada qualidade durante os primeiros três anos apresentavam: i) níveis mais elevados de desenvolvimento cognitivo e linguístico; ii) resultados mais positivos ao nível do desenvolvimento social e emocional; iii) menos problemas comportamentais e melhor relacionamento com pares, mãe e educadores/as. Evidências de outros estudos apontam que este impacto positivo é particularmente notório em crianças que vivem em circunstâncias de vulnerabilidade ou risco. Alguns destes estudos também têm salientado a importância da formação dos/as profissionais diretamente envolvidos nos processos educativos, valorizando-se uma formação que os/as prepare para um conjunto abrangente de necessidades de crianças e famílias e que garante um apoio contínuo às práticas.
Dados da Carta Social 2022 referem que 102.191 crianças frequentavam a creche, correspondendo a uma taxa de cobertura de 52.9%, mas com grandes assimetrias regionais penalizando os grandes centros urbanos. O programa Creche Feliz, desde 2021, assegura a gratuitidade da creche e incrementou o acesso para 120 mil crianças em 2024, mas é ainda insuficiente para a população residente em Portugal.
Impõe-se investir na melhoria de qualidade a acompanhar a gratuitidade e o aumento da taxa de cobertura, por exemplo, com o adequado rácio adulto/criança, a redução do tempo de permanência em creche ou a existência de um/a educador/a de infância com as crianças até 12 meses. Celebramos o reconhecimento do tempo de serviço docente em creche e a publicação das OPC, homologadas pela tutela da Educação e da Segurança Social, como medidas fundamentais para a afirmação da qualidade da educação desde o nascimento.
As Orientações Pedagógicas para Creche
Fundado no direito da criança à educação e no dever do Estado de a prover com elevada qualidade, as OPC constituem-se como o documento de referência para que os profissionais possam assegurá-la, numa profissionalidade eticamente situada, em estreita e contínua interação e compromisso com as famílias e a comunidade.
A sua conceção beneficiou de contributos da investigação sobre a ação pedagógica em creche e de outras áreas do conhecimento que convergem na criação de ambientes educativos humanizados, plurais e favoráveis à experiência de crianças, profissionais e famílias.
As OPC aprofundam a ideia da educação dos zero aos seis anos de idade como uma etapa integrada alicerçada numa coerência com as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar (OCEPE) salvaguardando especificidades da educação e cuidado de crianças até aos três anos de idade. Propõem uma reflexão mais atenta na creche: à imagem de bebé e criança reconhecendo o seu potencial e competência participativa desde o nascimento; à centralidade das relações e interações, seguras, respeitosas e afetuosas, que sustentem a qualidade da relação com ela própria, com os outros e com o mundo físico, social e cultural; às parcerias com as famílias, numa base de confiança, como sendo crítica para a coerência da educação e para a aprendizagem, desenvolvimento e bem-estar das crianças, a par com papel de suporte à parentalidade; à ação pedagógica numa abordagem holística e integrada em que a criança é entendida como ser integral, do reconhecimento da natureza inseparável da educação e do cuidado, com uma importância central dada ao papel do/a educador/a na liderança pedagógica que garante, com uma equipa alargada, um ambiente educativo inclusivo.
Na complexidade da sociedade atual e da mais-valia da crescente diversidade, a construção da qualidade em creche exige uma cultura organizacional coerente com estes fundamentos e princípios. A investigação e os referenciais de qualidade evidenciam, em particular, a centralidade dos profissionais e dos documentos que orientam a ação educativa. As OPC procuram constituir-se como instrumentais, pois sustentam a condição primordial da intencionalidade educativa, em que se privilegia o brincar e as interações positivas, como modo próprio de relação das crianças com o mundo, promotores do seu bem-estar e saúde e da sua identidade pessoal, social e cultural. Mas reiteram inequivocamente a condição de que a mesma seja nutrida em equipas que se questionam, dialogam e refletem continuamente sobre as suas práticas.
Em coerência com esta visão da educação em creche, as OPC apresentam três áreas de experiência e aprendizagem que se situam na interface entre as experiências e situações quotidianas vivenciadas pelos bebés e crianças e as aprendizagens que realizam em termos de conhecimentos, capacidades, disposições e atitudes: Bem-estar e Saúde; Identidade Pessoal, Social e Cultural; Comunicação, Linguagens e Práticas Culturais.
Estas apoiam o/a educador/a de infância no desenvolvimento de uma ação pedagógica intencional, guiada por referentes específicos e sensíveis ao bem-estar, aprendizagem e desenvolvimento nos primeiros anos. Estes referentes pretendem influenciar a construção de um quotidiano pedagógico que garanta experiências amplas, diversificadas e qualitativamente relevantes para os bebés e crianças, num ambiente educativo em que todos os profissionais são importantes e relevantes.
O momento presente é de reconhecimento de passos dados numa jornada que nos desafia a criar condições para a contextualização das OPC nas práticas e a sua apropriação por profissionais, famílias, decisores, tendo como meta coletiva a equidade de acesso de todos/as a educação e cuidado de qualidade.
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